Celulares apreendidos viram ferramenta para rastrear cristãos no Irã, aponta organização
Segundo relatos reunidos pela Article18, mensagens, contatos e fotos dos aparelhos levam a outros membros de igrejas domésticas; o governo nega perseguição religiosa
Autoridades do Irã estão usando os celulares tomados de cristãos durante prisões e interrogatórios para descobrir quem mais participa das igrejas que se reúnem em casas, segundo relatos reunidos pela Article18, organização que acompanha a situação dos cristãos no país. A informação foi publicada pela Gazeta do Povo em 5 de outubro.
De acordo com esses relatos, mensagens, listas de contatos, fotos e outros dados guardados nos aparelhos servem para identificar outros cristãos, que depois passam a ser procurados ou chamados para interrogatório. Nas operações feitas nas casas, os agentes também levam computadores e outros equipamentos.
Os mais atingidos são ex-muçulmanos que se converteram ao cristianismo e participam das chamadas igrejas domésticas, grupos que se reúnem fora das igrejas reconhecidas pelo governo. Parte desses encontros é tratada pelo regime como “ameaça à segurança nacional”, e já houve cristãos condenados por organizar ou frequentar as reuniões.
Prisões quase dobraram em 2025
O relatório anual “Scapegoats” (“Bodes expiatórios”), publicado em fevereiro pela Article18 com a Portas Abertas (Open Doors), a CSW e a Middle East Concern, contou 254 cristãos presos no Irã em 2025 por causa da fé ou de atividades religiosas. Em 2024 tinham sido 139.
As penas também ficaram mais duras: somadas, chegaram a 280 anos de prisão em 2025, contra 263 no ano anterior, e pelo menos 11 cristãos receberam condenações de dez anos ou mais. O número de cristãos que cumpriram penas de prisão, exílio ou trabalho forçado passou de 25 para 57.
Ainda segundo a Article18, nos interrogatórios os agentes de inteligência costumam pressionar líderes de igrejas a revelar as atividades e os nomes dos membros, e alguns já admitiram monitorar conversas telefônicas de cristãos.
Quem é reconhecido e quem não é
O Irã reconhece oficialmente as comunidades cristãs armênia e assíria, que mantêm igrejas próprias, como a Catedral de São Sarkis, em Teerã. Os convertidos de origem muçulmana não têm esse reconhecimento e não podem frequentar livremente essas igrejas. Por isso, muitos se reúnem em pequenos grupos, nas casas.
O governo iraniano nega que haja perseguição religiosa e afirma que as pessoas processadas respondem por questões de segurança nacional, e não pela fé.
Com informações de Gazeta do Povo e Article18.
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