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Três potências, um rio e as profecias: o que é fato e o que é interpretação

Estados Unidos, Rússia e China se movem ao mesmo tempo, o Eufrates secou em 2025 e encheu em 2026; um texto de opinião que separa o que está acontecendo do que se lê nas Escrituras

O rio Eufrates atravessa o Lago Assad, reservatório da represa de Tabqa, na Síria, em foto feita da Estação Espacial Internacional em 22 de abril de 2021
O rio Eufrates atravessa o Lago Assad, reservatório da represa de Tabqa, na Síria, em foto feita da Estação Espacial Internacional em 22 de abril de 2021 Foto: NASA (domínio público)

Este é um texto de opinião. Ele separa o que é fato comprovado, o que é semelhança com textos bíblicos e o que é interpretação de algumas correntes cristãs. Não é a posição do portal sobre profecias, e nenhuma igreja tem a palavra final sobre a data ou a forma do fim.

Basta abrir o Instagram para ver vídeos que juntam Donald Trump, Vladimir Putin e Xi Jinping numa mesma tela e perguntam se o mundo está sendo dividido em três reinos, como nas profecias. Ao lado, aparecem imagens do rio Eufrates seco e o versículo de Apocalipse 16:12. A pergunta é legítima. A resposta exige separar com cuidado o que está acontecendo do que está sendo interpretado.

O que é fato: as três potências se movem ao mesmo tempo

Em 2026, as três maiores potências militares do mundo agiram para ampliar ou garantir áreas de influência:

  • Estados Unidos: em 3 de janeiro, forças americanas fizeram uma operação na Venezuela e levaram o presidente Nicolás Maduro para Nova York, onde ele responde a processo. No mesmo mês, Trump voltou a dizer que os EUA deveriam ter a Groenlândia, território da Dinamarca, o que provocou protestos no país e na ilha. Em 28 de fevereiro, EUA e Israel atacaram o Irã; o líder supremo Ali Khamenei morreu no primeiro dia, e o filho dele, Mojtaba Khamenei, foi escolhido para o cargo.
  • Rússia: a guerra na Ucrânia continua. A Rússia ocupa cerca de 20% do território ucraniano e exige que a Ucrânia deixe as quatro regiões que Moscou anexou. Em outubro houve nova tentativa de negociação, sem acordo.
  • China: fez novos exercícios militares com tiro real em vários mares em outubro, e a pressão sobre Taiwan segue. O presidente taiwanês, Lai Ching-te, disse no dia 10 que a ilha "preza a paz", mas não abre mão da liberdade.

Revistas e institutos de política internacional, como a Foreign Policy, a Foreign Affairs e o Council on Foreign Relations, discutem desde o começo do ano se o mundo está voltando às "esferas de influência", em que cada potência manda na sua região. Mas não há consenso. Parte dos analistas diz que só os Estados Unidos têm força para isso; outros lembram que as três potências não são aliadas. A Rússia e a China condenaram o ataque ao Irã e, segundo relatórios de inteligência americanos citados pela imprensa, passaram a ajudar Teerã, contra os interesses dos EUA. Não há sinal de um acordo entre as três para dividir o mundo.

O que é fato: o Eufrates secou e depois encheu

O Eufrates nasce nas montanhas da Turquia, atravessa a Síria e o Iraque e se une ao Tigre antes de chegar ao Golfo Pérsico. Em 2025, o Iraque viveu uma das piores secas em décadas: o Ministério de Recursos Hídricos iraquiano informou que as represas guardavam só cerca de 8% da capacidade, e autoridades culparam também as barragens da Turquia, que seguram a água rio acima.

Em 2026, o quadro mudou. Com chuvas fortes, a represa de Tabqa, na Síria, abriu as comportas de vertedouro em maio pela primeira vez em mais de 30 anos, e houve alerta de enchente em Raqqa e Deir ez-Zor. No Iraque, a província de Anbar entrou em alerta quando o rio subiu cerca de um metro e meio. Em agosto, o ministério iraquiano informou que a água do Eufrates que chegava da Síria estava em torno de 680 metros cúbicos por segundo, mais de quatro vezes os 151 do mesmo período de 2025. Em setembro, a represa síria abriu mais uma comporta. Ou seja: hoje o Eufrates não está seco. Está mais cheio do que esteve nos últimos anos.

O que diz a Bíblia

Apocalipse 16:12 descreve o sexto de sete flagelos: "E o sexto anjo derramou sua taça sobre o grande rio Eufrates; e sua água se secou, para que se preparasse o caminho dos reis do oriente" (Bíblia Livre). Os versículos seguintes falam de espíritos que reúnem os reis do mundo inteiro para a batalha, no lugar chamado Armagedom.

Outras passagens costumam ser lembradas nesse debate: os quatro animais de Daniel 7, que o próprio texto explica como reinos; o rei do Norte e o rei do Sul de Daniel 11; Gogue, da terra de Magogue, com a Pérsia entre os aliados, em Ezequiel 38 e 39; e Jerusalém cercada pelas nações em Zacarias 12 e 14.

O que a Bíblia não diz: não fala em três reinos no fim dos tempos e não cita Estados Unidos, Rússia ou China. O número três aparece em Daniel 7:8, nos três chifres arrancados, e em Apocalipse 16:19, quando a grande cidade se divide em três partes.

Como as igrejas leem esses textos

  • Pré-milenismo dispensacionalista: lê essas profecias como acontecimentos futuros e literais. Nessa linha, muitos pregadores associam Magogue à Rússia, a Pérsia ao Irã e os "reis do Oriente" à China ou a outras potências da Ásia.
  • Pré-milenismo histórico: também espera a volta de Cristo antes do milênio, mas costuma ser mais cauteloso em ligar cada símbolo a um país de hoje.
  • Amilenismo: lê boa parte do Apocalipse como símbolo da luta entre o bem e o mal ao longo de toda a história da Igreja, não como um mapa de nações atuais.
  • Leituras históricas e simbólicas: entendem que muitas dessas visões falavam primeiro a quem as recebeu, como os impérios da época de Daniel ou a Roma do primeiro século no Apocalipse. Algumas lembram que, quando o Eufrates baixou de verdade, ele abriu caminho para invasores, como na conquista da Babilônia pelos persas, relatada por historiadores antigos.

Há consenso entre as tradições cristãs em um ponto: Jesus volta, e ninguém sabe o dia. Há divergência sobre quase todo o resto: a ordem dos acontecimentos, o que é literal e quem são os povos citados.

Fato, paralelo, interpretação e o que não está comprovado

  • Fato confirmado: Estados Unidos, Rússia e China agiram militarmente em 2026 em áreas que consideram suas (Venezuela, Ucrânia, entorno de Taiwan); há guerra envolvendo Israel e Irã; o Eufrates teve seca grave em 2025 e cheia em 2026.
  • Paralelo bíblico: guerras e rumores de guerras (Mateus 24:6); nações contra nações (Lucas 21:10); um rio Eufrates que, em profecia, abre caminho a reis do Oriente (Apocalipse 16:12).
  • Interpretação teológica: que Magogue seja a Rússia, que os reis do Oriente sejam a China, que haja três reinos finais.
  • Não comprovado: que estejamos vendo agora o cumprimento dessas profecias; que as três potências tenham combinado dividir o mundo; que o Eufrates esteja secando hoje.

Opinião: o que vemos nisso

Na nossa leitura, os acontecimentos de 2026 lembram, sim, a linguagem das profecias: potências medindo forças, Israel no centro de uma guerra, o Eufrates em evidência. Mas lembrar não é cumprir. O rio que secou em 2025 encheu em 2026, e as três potências que aparecem juntas nos vídeos estão, na prática, em lados opostos. Quem amarra cada notícia a um versículo corre o risco de anunciar o fim muitas vezes e errar todas elas.

O próprio Jesus deixou a orientação para tempos assim: "Olhai que não vos espanteis; porque é necessário, que tudo isto aconteça, mas ainda não é o fim" (Mateus 24:6). E também: "Porém daquele dia e hora, ninguém sabe" (Mateus 24:36). As citações são da Bíblia Livre. O chamado não é para o medo nem para a adivinhação, mas para a vigilância e a fé: orar pela paz, ajudar quem sofre com as guerras e as secas e anunciar as boas novas enquanto há tempo.

Referências bíblicas: Daniel 7; Daniel 11; Ezequiel 38 e 39; Zacarias 12 e 14; Mateus 24; Lucas 21; Apocalipse 13; Apocalipse 16:12-19; Apocalipse 17 e 18.

Com informações de Al Jazeera.

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