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Em Gaza, médicos relatam feridas que não cicatrizam e estudo aponta bactérias resistentes a antibióticos

Reportagem da BBC dentro da Faixa de Gaza mostra infecções que não respondem aos remédios, falta de água e acampamentos com ratos; Israel contesta os dados e diz liberar a entrada de medicamentos

Vista aérea da área de al-Mawasi, no sul da Faixa de Gaza, onde palestinos deslocados vivem em tendas (foto de janeiro de 2025)
Vista aérea da área de al-Mawasi, no sul da Faixa de Gaza, onde palestinos deslocados vivem em tendas (foto de janeiro de 2025) Foto: Ashraf Amra/UNRWA, via Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0 IGO)

Hospitais da Faixa de Gaza registram altas taxas de infecções que não respondem aos antibióticos disponíveis no território, segundo médicos da organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF) ouvidos pela BBC, que publicou nesta segunda-feira (2) uma reportagem feita dentro de Gaza.

No Hospital Nasser, em Khan Younis, a equipe acompanhou uma menina de 6 anos ferida quando um ataque atingiu a tenda da família no campo de al-Mawasi, em 30 de julho, segundo testemunhas. As Forças de Defesa de Israel (FDI) afirmam não ter registro de ataque naquele momento e local. A menina tinha fratura na perna, feridas infectadas e um estilhaço no cérebro. Segundo o médico Awni al-Jaafarawi, da MSF, as feridas estavam infectadas por bactérias resistentes a vários medicamentos, e os ferimentos precisaram ser reabertos e limpos mais de 20 vezes. No fim de setembro, ela e o pai conseguiram autorização para seguir ao Egito, com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), segundo a família.

Estudo com quase 80 mil amostras

O que os médicos descrevem aparece também em um estudo compartilhado com o Serviço Mundial da BBC. A pesquisa analisou quase 80 mil amostras de bactérias coletadas em 11 hospitais de Gaza entre 2015 e 2025 e aponta resistência generalizada a antibióticos importantes. O trabalho foi feito por cientistas de Gaza, com apoio da Fleming Initiative, do Imperial College London, e da Universidade Americana de Beirute. Os resultados são preliminares: o estudo ainda não passou pela revisão de outros especialistas.

Para a médica Aula Abbara, da Fleming Initiative, a destruição dos sistemas de água e esgoto em conflitos favorece a transmissão dessas infecções. Al-Jaafarawi afirma que, com infecções que chegam aos ossos, o número de amputações deve aumentar nos próximos anos.

Água, lixo e ratos nos acampamentos

Segundo a ONU, quase 90% da infraestrutura de água e saneamento de Gaza foi destruída ou danificada, e um relatório da organização divulgado em julho apontou que mais de 80% das famílias não têm acesso seguro à água. A Coordenação de Atividades Governamentais nos Territórios (Cogat), órgão israelense que administra as fronteiras de Gaza, contesta os dados e afirma que o volume de água fornecido supera o mínimo definido pela ONU para emergências.

Uma pesquisa de abril do Site Management Cluster, grupo que gerencia acampamentos em Gaza, citada por agências da ONU, apontou ratos ou outras pragas com frequência em 81% dos locais que abrigam famílias deslocadas, onde vivem cerca de 1,45 milhão de pessoas. Organizações humanitárias relataram à BBC falta de remédios e equipamentos; a Cogat afirma que permite a entrada de medicamentos, incluindo antibióticos, sem restrições.

O cessar-fogo entre Israel e o Hamas, mediado pelos Estados Unidos, vale desde outubro de 2025. Segundo o Ministério da Saúde de Gaza, administrado pelo Hamas, 1.421 palestinos morreram desde então; as FDI contestam os números e disseram à BBC que lamentam qualquer dano a civis. A guerra começou depois do ataque liderado pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que deixou cerca de 1,2 mil mortos e 251 reféns, segundo a BBC. Ainda segundo o ministério de Gaza, cerca de 5,6 mil crianças aguardam transferência para tratamento fora do território.

Com informações de BBC News Brasil.

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